terça-feira, 18 de outubro de 2011

"O fio que segura"

Ele se perguntava se era capaz de sentir algo quando via uma pessoa próxima dele sofrendo, chorando, passando por coisas que atormentam a alma, coisas que para ele pareciam indiferentes ou completamente afastadas de sua realidade.

Essa questão dificultava sua interação social que para ele as vezes era baseada na "imitação de gestos alheios". Não sabendo o que fazer em determinado momento que exigia alguma troca subjetiva, ele simplesmente procurava lembrar que situação ele já havia visto e que ações poderia aproveitar para a sua própria situação.

Acabava que isso se mostrava como uma evidência, para os que observavam, de que parecia ser antipático, quando na verdade ele se esforçava para encontrar o significado verdadeiro da palavra "simpatia" sendo o que mais queria era poder sentir o sentimento do outro, mas isso era demasiado abstrato quando se deparava.

Isso parecia que vinha de razões as quais não percebia claramente, como falta de contato na sua criação familiar, ou falta de gestos em sua formação escolar. Vinha em sua mente episódios de uma época que parecia distante e não pareciam fazer uma conexão exata com a questão, mas que eram as únicas coisas que lhe surgiam.

Episódios de reações indiferentes, de rejeições, de frieza, de coisas que demonstravam no fim das contas como a vida era dura e cruel. Então ele queria enxergar que seguindo isso haveria surgido um tipo de autoproteção que havia criado um tipo de barreira ou de escudo para as situações que lhe apareceriam futuramente.

Se preparar para o pior era uma coisa que ele se via fazendo quando menor, mas que na sua idade atual, já entendia que era algo automático em seus gestos. E com isso percebeu que estava levando a vida do jeito que dava sem perceber que implicitamente existiam todos esses porquês das coisas. 

Procurando respostas concretas acabou ficando só na especulação e terminou assumindo que era uma pessoa diferente e "sem jeito" para essas coisas que eram tão comuns as demais pessoas. Não sabia bem se dava para mudar mas sabia que dava para viver com isso, pelo menos era o que tentava fazer até então, mas agora de forma consciente.

Essa falta de jeito as vezes se apresentava de forma forte ou de forma mais sutil nas interações sociais e a oscilação, para ele, queria ser uma indicação de que existia um certo equilíbrio ou uma certa balança que ia se ajustando com o tempo. Mas ele não sabia quanto tempo poderia demorar.

Feito esse processo de auto análise, deixou a questão de lado e procurou voltar a atenção para outras coisas e foi só meses depois que lhe voltou quando começou a conhecer uma pessoa nova.

Conhecendo essa pessoa nova ele se viu sem jeito inicialmente mas logo em seguida começou a se sentir confortável e bem com ela. O que não mudou foi aquela apreensão de que as coisas não fossem dar certo e aquela sensação de que "andava em brasas" parecendo que a qualquer segundo se se descuidasse iria se queimar.

E com a interação dos dois aumentando e nada dando errado, mostrando que sua apreensão era sem fundamento, ele começou a tentar diminuir esse sentimento, tentar colocar ele embaixo dos outros sentimentos bons que estavam aparecendo durante essa experiência nova.

E foi um dia de manhã logo depois de sonhar com ela e acordar que percebeu que ela lhe fazia extremamente bem mas queria entender. O sonho relacionava carinho e atenção vindo de uma interação humana de uma forma que ele não entendia, mas que ele conseguiu sentir durante a experiência do sono.

E assim foi perceber que a beleza e a felicidade que encontrara com a pessoa não encontrava no mundo e isso parecia extremamente estranho. Estranho porque o mundo duro e cruel desaparecia quando interagia com essa pessoa, quando sentia o que sentia por ela. Pode ter começado com empatia, depois até simpatia e quem sabe não brotasse um amor daqueles que a gente não sabe bem de onde veio.

Foi depois desse sonho e dessas inquietações que surgiram, que ele se deparou com o mundo cruel de novo que queria dizer para ele que isso ia acabar como tudo na vida. Ele ficou triste e feliz ao mesmo tempo. Isso porque entendia que o fato de acabar apesar de lhe deixar triste, aparentava um momento que lhe fazia feliz e fazia valer a pena uma vida.  Ele sabia que enquanto tivesse com essa pessoa por perto ele teria certeza que o fio que o segurava próximo da humanidade continuaria a existir.

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