terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"O dia que o mundo foi embora"

Um fim de tarde de domingo é um momento em que não esperamos muito dos acontecimentos, em que tudo parece deslizar-se suavemente até que o dia acabe e comece mais uma semana, como se o presente fizesse sentido dentro da sequência do dia. Mas aconteceu que neste mesmo contexto houve uma mudança uma semana dessas, e levando a vida como se levava até então, senti algo diferente.

Terminado de assistir o filme - que eu já havia visto - que concluía no fim que apesar da vida dura, triste e ambígua de significado o que acaba sobrando é uma tentativa de direção que podemos dar à nossa vida com o amor, me deparei com uma sensação que talvez eu já tivesse encontrado mas que naquele momento tomava proporções maiores.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

"O fio que segura"

Ele se perguntava se era capaz de sentir algo quando via uma pessoa próxima dele sofrendo, chorando, passando por coisas que atormentam a alma, coisas que para ele pareciam indiferentes ou completamente afastadas de sua realidade.

Essa questão dificultava sua interação social que para ele as vezes era baseada na "imitação de gestos alheios". Não sabendo o que fazer em determinado momento que exigia alguma troca subjetiva, ele simplesmente procurava lembrar que situação ele já havia visto e que ações poderia aproveitar para a sua própria situação.

Acabava que isso se mostrava como uma evidência, para os que observavam, de que parecia ser antipático, quando na verdade ele se esforçava para encontrar o significado verdadeiro da palavra "simpatia" sendo o que mais queria era poder sentir o sentimento do outro, mas isso era demasiado abstrato quando se deparava.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

"A reclusão esquecida"

O homem era recluso e não tinha tempo para diversões, vivia achando que estas faziam perder o tempo e que o sentido de sua vida se remetia sempre a livros e atividades introspectivas. Para ele toda atividade que se envolvia com um quê de "social" acabava expondo algumas fraquezas que ele poderia apresentar ou coisas que lhe incomodavam profundamente.

No dia-a-dia sua rotina consistia em caminhar pela manhã antes do trabalho, e após, suas noites se revezavam entre leitura, escrita, relaxamento e por ai vai, tudo era bem cronometrado. Até que inspirado por um filme que mostrava um personagem muito diferente dele próprio, resolveu usar o olhar crítico e clínico que tanto praticava nas pessoas ao redor, em si mesmo.

sábado, 24 de setembro de 2011

"Lágrimas transparentes"

Existem coisas que não percebemos ao nosso redor porque de certa forma esperamos depois de uma repetição que as coisas continuem acontecendo da mesma forma, e normalmente isso acontece dentro do contexto da rotina. O que eu tento fazer é, quando possível, fugir desse "olhar distraído" e tentar prestar atenção nos detalhes, porque conseguem ser belos, e também porque há muita coisa despercebida neste caos do ambiente urbano que leva à estagnação do olhar. 

Mas não é fácil, passa tanta coisa pela nossa cabeça e quando se percebe já se está dentro de uma situação que você não sabe bem porque foi parar lá e a partir daí você pode resolver redobrar sua atenção, mas pode ser tarde demais.

Eu estava no meu trajeto usual pela cidade quando passei por uma praça pública e havia acabado de desligar o fone de ouvido para ver se meus pensamentos clareavam, quando eu decidi reparar nos detalhes. E ali teve uma imagem que me dilacerou.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

"O silêncio caloroso"

O trajeto do ônibus e seu fator constante era o cenário de vários rostos cansados e que pareciam tão inseridos em suas rotinas que as vezes pareciam que se perdiam lá. O mesmo motorista, os mesmos passageiros, as ruas e os horários, tudo parecia tão comum e ciclíco que as mudanças e as novidades demoravam pra chamar atenção. E foi assim que eu acho que percebi a presença de uma nova garota entre os demais cidadãos uma das vezes.

Eu fui reparar inicialmente porque sua beleza se destacava para aqueles que reparavam nos detalhes fugindo da rotina, coisa que eu estava tentando. E apesar dos passageiros constantes, acontecia que os "lugares preferidos" eram escolhidos por pessoas eventuais desse trajeto que era também em um horário estratégico, perto da hora do almoço. E meu único contato era com o olhar.

Encontrava tantas vezes com ela que eu parecia estar construindo internamente um afeto, tanto que uma vez me peguei pensando se ela iria perder o ponto de descida e quando começou a levantar apareceu uma pessoa de idade vagarosa atrapalhando o caminho dela, eu sem pensar estiquei o braço e apertei o botão para que o ônibus parasse no próximo ponto, como se eu já estivesse ajudando-a. Sem haver trocado uma palavra que fosse.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

"A verdade"

Outro dia desses um amigo foi comentar de uma pessoa que conheceu. Eu que não sou daqueles de fazer amizade a todo momento pensei "deve ser mais uma pessoa." Até que chegou o momento que eu a conheci meio que sem querer, em um evento desses da cidade em que tocava um grupo de blues e as pessoas saiam falantes e sorridentes dele.

Eu tinha ido sozinho no evento mas encontrei o meu amigo e essa pessoa lá, obviamente a primeira coisa que a gente repara é a aparência da pessoa e a cabeça já vai julgando. Uma grande pena porque pela aparência dela os conceitos começaram a se formar me fazendo suspeitar que uma pessoa bela poderia ter o que outras pessoas belas tem, como a cabeça rasa e outras coisas que seguem o estereótipo. A partir dai procurei evitar esse pensamento.

Os dias foram passando e eu tive a oportunidade de trocar ideias com ela mesmo que timidamente e pela internet. Parecia que ambos, pessoas fechadas, iam introduzindo um pouco da sua visão de mundo, de acordo com a necessidade das palavras. Entre os sarcasmos e as ironias que iam aparecendo a gente percebia que as palavras sinceras estavam lá e por isso meio que descobrindo o intelecto do outro, descobrindo de onde vem tal pensamento, como a pessoa pensa assim, ambos se respeitando e sem evitar, se analisando.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

"Despertar do sono"

Eu estava passando por uma fase que não sabia bem porque não via mais sentido em dormir. Era muito fácil me fazer ficar acordado, as vezes ia acontecendo, como o dia que depois de uma longa série de compromissos eu voltei para casa e ao invés de dormir logo em seguida, fiquei acordado.

Ficava acordado e as vezes esquecia de adormecer, quando via era obrigado a parar de fazer o que estava fazendo porque se ficasse mais um pouco lá era capaz de não dormir e envolver um dia no outro sem transição. Existia uma energia que me impulsionava a fazer as coisas uma atrás da outra e eu ia acompanhando-a.

Até que apareceu o momento que sem reparar havia passado uma hora sem que eu tivesse feito nada, como se eu tivesse dormido sem saber. E esse episódio voltou a acontecer e eu ia sentindo um forte sono nos mais diversos lugares. Nas viagens de ônibus, nas sessões de cinema, até em conversas com amigos que antes me animavam.

Parecia que eu perdia momentos da minha vida, que os dias iam passando mais rápidos e que não eram demorados como no momento anterior. Passei de ter insônia para ter um sono excessivo, e eu procurava pelos motivos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"Dança comigo?"

Chegava o fim de semana, depois de dias corridos e cheios de prazos e profissionalidades que exigiam o mais alto caráter frio nas pessoas, para nos apresentar a chance de se aproximar com o próximo, de estreitar laços e evitar a frieza cotidiana.

Eu não sabia bem como começar e chamava uns amigos para conversar, tomar café, as piadas apresentavam risadas tão intensas que representavam esse calor que ia surgindo, mas que se limitadas às meras risadas por si só davam um ar de "falta algo".

Até que surgiu a ideia numa casa de shows durante a apresentação de um grupo musical, de se deixar levar pela música, de ser impulsivo, de expressar o sentimento de calor, antes escondido no dia-a-dia, através dos movimentos da dança. Não uma dança pormenorizada mas sim uma expressão realmente visceral, sem movimentos precisos e as vezes até caóticos. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

"O abrir de uma flor"

A primeira vez que a vi eu devo ter agido estranho porque foi um susto. A pessoa que trabalhava atendendo as pessoas no seu lugar era um rapaz que eu sabia quem era e conhecia, mas depois de umas semanas ele havia saido do emprego dando lugar à esta nova pessoa que apareceu sem avisar.

Depois da surpresa inicial, deu tempo de respirar um pouco e tentar ver quem era essa pessoa. A primeira curiosidade que chamava atenção era seu cabelo loiro, seus olhos claros e sua aparência que ofuscava, em que outros logo entenderiam que se tratava de uma pessoa extrovertida, altamente sociável e talvez superficial, como indicavam o clichê do senso comum de uma pessoa bela.

Foi nas primeiras palavras que percebi que isso se tratava de um erro considerável, que pelo contrário, ela participava da quebra desses conceitos pré-estabelecidos só que de uma forma sutil que só percebiam de verdade aqueles que parassem e prestassem atenção, porque era algo íntimo. E foi o que resolvi fazer, parar e prestar atenção nos seus gestos, nas suas visões e nas suas palavras. Diferente daquele senso comum que só ia olhá-la eu resolvi ouví-la.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

"O desperdício"

Quando ele a conheceu, já sabia quem ela era, tinha uma certa opinião formada mas também estava aberto à deixar que os fatos mostrassem o contrário. Ele havia conhecido ela pela internet através de um blog pessoal que mantinha, o que o fez sentir "invadindo" a privacidade que ela tornava pública através da subjetividade.

Ela, já não sabia quem ele era e o fato de ele ser amigo de amigos aparecia para ela como uma possibilidade grande de confiança. Ela entendia que o rapaz que os amigos conheciam há anos não teria muito motivo para desconfiança porque parte de sua vivência, de sua formação foi compartilhada com os amigos dela, assim, os aproximando.

Aconteceu que o rapaz por ter esse contato prévio dela e seus pensamentos, já imaginava algumas características do caráter dela e também não se imaginava conversando com ela, afinal ele havia montado a personalidade na cabeça dele achando que ela fosse "real" antes mesmo de a conhecer. Mas passaram-se os dias e os acontecimentos procederam que ambos começaram conversar, surpreendendo o rapaz.